Durante a ANDTECH 2026, o Detran-SP apresentou os próximos passos da evolução do Infosiga, plataforma paulista de monitoramento da segurança viária. A nova fase do sistema aposta fortemente em inteligência artificial e análise preditiva de dados, com o objetivo de antecipar riscos no trânsito e orientar políticas públicas antes que acidentes graves aconteçam.
O avanço marca uma mudança importante na lógica de gestão da segurança viária. Em vez de agir apenas depois que mortes ou lesões graves ocorrem, o sistema passa a identificar padrões recorrentes que indicam risco futuro elevado, permitindo intervenções preventivas.
Segundo Pedro Borges, coordenador do Observatório de Segurança no Trânsito do Detran-SP, o novo modelo busca utilizar o histórico de dados para orientar decisões mais inteligentes.
A ideia central é simples: não olhar apenas para onde os acidentes aconteceram, mas identificar onde eles podem acontecer.
Essa abordagem foi apresentada no painel “INFOSIGA preditivo: Inteligência de dados para antecipar e salvar vidas”, realizado na Arena Vision da ANDTECH.
Inteligência artificial aplicada à segurança viária
A evolução do Infosiga foi desenvolvida em parceria com a Prodesp, empresa de tecnologia do Governo do Estado de São Paulo, além de instituições privadas com experiência internacional em infraestrutura analítica.
Empresas como AWS e Volis AI participam do desenvolvimento da nova arquitetura tecnológica do sistema.
Segundo Pedro Bottesi, da AWS, o desafio é enriquecer as bases de dados com múltiplas áreas de conhecimento para ampliar a capacidade preditiva.
Isso significa cruzar informações como:
- histórico de sinistros;
- comportamento de tráfego;
- fatores de risco;
- características urbanas das vias;
- padrões recorrentes de ocorrências.
A partir dessa análise, o sistema poderá identificar situações que hoje parecem pouco relevantes isoladamente, mas que indicam risco crescente quando analisadas em conjunto.
Um exemplo citado é o de colisões sem vítimas em determinados pontos da cidade. Embora esses acidentes não gerem impacto imediato grave, a repetição do padrão pode indicar falhas de infraestrutura ou comportamento de risco que, no futuro, podem resultar em acidentes fatais.
Com a análise preditiva, essas áreas passam a ser tratadas como sinais de alerta para intervenção preventiva.
Novo aplicativo para coleta digital de sinistros
Outro avanço anunciado durante o evento foi o desenvolvimento de um novo aplicativo digital para registro de sinistros de trânsito.
A ferramenta deverá ser utilizada inicialmente pela Polícia Militar, com previsão de integração posterior às prefeituras conectadas ao Sistran.
O objetivo é melhorar a qualidade dos dados coletados em campo.
Hoje, muitas informações importantes simplesmente não são registradas na base de dados.
Com o novo formulário digital, os agentes poderão registrar elementos como:
- presença de veículos autopropelidos;
- fatores de risco como alcoolemia ou velocidade;
- geolocalização exata do sinistro;
- características da via;
- contexto do acidente.
Esse enriquecimento da base de dados permitirá análises muito mais precisas.
Segundo Roberta Mantovani, diretora de Segurança Viária do Detran-SP, o objetivo é alinhar a política pública brasileira com metodologias internacionais consolidadas, como o sistema KABCO, utilizado nos Estados Unidos para classificação de vítimas de trânsito.
IA e dados para proteção em áreas escolares
Outro tema discutido durante a ANDTECH foi o uso de inteligência de dados para aumentar a segurança em áreas escolares.
No painel “Dos dados à ação: como a IA pode impulsionar investimentos em infraestrutura segura para escolas”, especialistas apresentaram metodologias utilizadas internacionalmente para reduzir acidentes em regiões com grande circulação de crianças.
Entre as soluções defendidas estão intervenções urbanas como:
- travessias elevadas;
- extensões de calçada;
- ilhas de refúgio;
- rotatórias compactas;
- redução de raios de conversão;
- melhoria da visibilidade de faixas de pedestres;
- moderação física de velocidade.
A metodologia internacional apresentada pela organização iRAP, aplicada em mais de 100 países, permite avaliar riscos viários e gerar planos de investimento baseados em evidências.
No Brasil, um dos exemplos apresentados foi o da cidade de Imperatriz (MA), onde diagnósticos iniciais apontaram níveis elevados de risco em áreas escolares.
A partir da análise dos dados, a principal intervenção inicial foi a redução da velocidade para 30 km/h em regiões com grande fluxo de estudantes.
A relação com o marco regulatório do trânsito
Os avanços tecnológicos apresentados na ANDTECH 2026 dialogam diretamente com a evolução regulatória do setor de trânsito no Brasil.
O Código de Trânsito Brasileiro (CTB) estabelece a responsabilidade do Estado na gestão da segurança viária e na fiscalização da frota circulante.
A Resolução CONTRAN nº 941/2022 reforça a necessidade de procedimentos técnicos estruturados e registro digital de evidências nas vistorias e processos de identificação veicular.
O Projeto de Lei nº 3507/2025 reforça o papel da vistoria e da inspeção como instrumentos fundamentais para prevenção de acidentes e aumento da segurança no trânsito.
Já a Portaria nº 47 do Detran-SP introduz uma lógica de fiscalização baseada em análise de dados, padrões operacionais e recorrência de irregularidades.
Nesse contexto, ferramentas como o Infosiga preditivo ampliam a capacidade do Estado de agir de forma estratégica.
O trânsito orientado por dados
A evolução do Infosiga mostra que o sistema de trânsito brasileiro está entrando em uma nova fase: a da gestão orientada por dados.
Nesse modelo, decisões deixam de ser tomadas apenas com base em percepções ou eventos isolados e passam a ser guiadas por análise estatística, inteligência artificial e integração de dados.
Essa transformação também dialoga com o movimento mais amplo observado no setor durante a ANDTECH 2026, que inclui:
- fiscalização digital;
- integração nacional de dados;
- inteligência artificial aplicada ao trânsito;
- rastreabilidade tecnológica.
Mais do que inovação tecnológica, essa mudança representa uma nova forma de pensar a segurança viária.
Uma abordagem em que dados deixam de apenas registrar o passado e passam a orientar o futuro, permitindo que políticas públicas atuem antes que vidas sejam perdidas.









