A ANDTECH 2026, maior encontro nacional dedicado à tecnologia e inovação no trânsito, apresentou uma série de iniciativas que podem transformar o sistema de controle veicular no Brasil. Entre os anúncios mais relevantes estão o Dispositivo de Segurança de Emplacamento (DSE) — conhecido como parafuso inteligente — e o Sistema de Integração de Vistorias entre Detrans (SIVED).
As duas soluções atacam problemas históricos do setor: clonagem de placas, fragilidade no sistema de emplacamento e burocracia na circulação de laudos de vistoria entre estados.
Essas iniciativas também refletem um movimento maior do sistema de trânsito brasileiro: mais tecnologia, integração de dados e rastreabilidade digital.
Parafuso inteligente: um novo lacre digital para placas Mercosul
O DSE (Dispositivo de Segurança de Emplacamento) foi anunciado por Givaldo Vieira, presidente da Associação Nacional dos Detrans (AND), durante a ANDTECH 2026.
A proposta busca corrigir uma fragilidade existente no modelo atual de placas Mercosul. Embora o novo padrão tenha modernizado o sistema de identificação veicular, ele eliminou o antigo lacre físico utilizado nas placas cinzas.
Na prática, isso abriu espaço para fraudes.
Hoje, a fixação das placas ocorre com parafusos comuns, que podem ser removidos e reutilizados por quadrilhas especializadas em clonagem de veículos.
O impacto desse crime é significativo. Somente no estado de São Paulo, cerca de 5 mil pessoas por mês são vítimas de clonagem de placas.
O novo dispositivo pretende reduzir esse risco.
Como funcionará o DSE
O parafuso inteligente funcionará como um lacre digital de segurança, integrado diretamente à placa.
O dispositivo terá capacidade de:
- identificar tentativas de violação da placa;
- emitir alertas em caso de remoção ou adulteração;
- armazenar dados criptografados do veículo;
- permitir rastreabilidade digital em fiscalizações.
Além disso, o sistema será compatível com tecnologias já existentes, como:
- pedágios eletrônicos e sistemas free flow;
- sistemas de estacionamento inteligente;
- leitura automática em fiscalizações eletrônicas.
O dispositivo poderá ser identificado por proximidade ou por sistemas automatizados, ampliando a capacidade de controle do poder público.
O projeto foi testado em cidades como Magé (RJ), Leopoldina (MG) e Serra (ES).
A tecnologia também será integrada ao AI2 – Ambiente de Integração e Interoperabilidade, plataforma vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação voltada à integração de soluções tecnológicas.
O desenvolvimento contou com acompanhamento da Senatran e do Inmetro para garantir compatibilidade com o padrão Mercosul.
Atualmente, o sistema está em fase de validação jurídica e busca adesão dos Detrans estaduais.
SIVED: a vistoria digital entre estados
Outra inovação apresentada foi o SIVED – Sistema de Integração de Vistorias entre Detrans.
O sistema pretende digitalizar e integrar nacionalmente as vistorias obrigatórias em situações como:
- transferência de propriedade entre estados;
- mudança de domicílio do veículo.
Hoje, o processo ainda envolve grande volume de burocracia.
Em alguns casos, veículos precisam percorrer longas distâncias para realizar vistorias presenciais, e documentos físicos ainda são utilizados para validação entre órgãos.
Segundo Givaldo Vieira, ainda existem procedimentos que utilizam laudos em papel, envelopes lacrados e carimbos manuais, estruturas vulneráveis a fraude.
Com o SIVED, os laudos circularão digitalmente entre os Detrans, com validação segura e rastreável.
O sistema também utilizará inteligência artificial para análise e verificação dos documentos, reduzindo fraudes e aumentando a eficiência do processo.
Cada Detran continuará responsável pela emissão dos laudos, mas o compartilhamento ocorrerá de forma integrada.
Redetran e a integração nacional de dados
Outro projeto apresentado foi a Redetran, uma rede nacional voltada ao compartilhamento de informações entre Detrans.
Hoje, o Brasil possui cerca de 123 milhões de veículos, com dados muitas vezes fragmentados entre diferentes sistemas estaduais.
A Redetran pretende criar um ambiente de consulta integrado, com atualização mais rápida e interface unificada.
Cada Detran manterá seu próprio servidor para evitar sobrecarga dos sistemas locais, enquanto a rede permitirá consultas seguras e interoperáveis.
O modelo segue protocolos de segurança semelhantes aos adotados por países com forte governo digital, como a Estônia, e respeita as diretrizes da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).
A plataforma também contará com um ambiente analítico chamado Torre AND, reunindo indicadores nacionais para apoiar decisões estratégicas sobre mobilidade e segurança viária.
A conexão com o marco regulatório do setor
As iniciativas apresentadas na ANDTECH se conectam diretamente ao processo de evolução regulatória do sistema de trânsito.
O Código de Trânsito Brasileiro (CTB) estabelece o controle da frota como responsabilidade do Estado.
A Resolução CONTRAN nº 941/2022 exige metodologia técnica estruturada e produção de evidências digitais nas vistorias de identificação veicular.
O PL 3507/2025 reforça o papel da inspeção e da vistoria como instrumentos de prevenção de acidentes e controle da frota circulante.
Já a Portaria nº 47 do Detran-SP fortalece a fiscalização baseada em padrões operacionais e análise de dados históricos.
Nesse cenário, tecnologias como o DSE e sistemas como o SIVED ampliam a capacidade de rastreabilidade, segurança e integração do sistema.
Tecnologia como ferramenta de segurança e eficiência
Os anúncios da ANDTECH 2026 mostram que o sistema de trânsito brasileiro caminha para um modelo cada vez mais baseado em:
- tecnologia antifraude;
- integração nacional de dados;
- digitalização de processos;
- inteligência artificial aplicada à fiscalização.
Essas mudanças não representam apenas inovação tecnológica.
Elas representam uma tentativa de tornar o sistema mais seguro, mais eficiente e mais confiável para o cidadão.
Se implementadas em escala nacional, essas iniciativas podem representar um dos maiores avanços já vistos na infraestrutura tecnológica do trânsito brasileiro.









